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O APARELHAMENTO QUE AMEAÇA AFUNDAR A GIGANTE TUPY

O APARELHAMENTO QUE AMEAÇA AFUNDAR A GIGANTE TUPY

ENQUANTO MINISTROS DO GOVERNO LULA EMBOLSAM SALÁRIOS ASTRONÔMICOS NO CONSELHO DE UMA DAS MAIORES METALÚRGICAS DO PAÍS, VOCÊ DEVERIA ESTAR PREOCUPADO?

Enquanto você lia este título, três ministros do governo federal receberam aproximadamente R$ 113 por hora para ocupar cadeiras no conselho de administração da Tupy, multinacional brasileira do setor metalúrgico. Sem qualquer consulta prévia à Comissão de Ética Pública da Presidência e com credenciais técnicas questionáveis para o cargo, Anielle Franco (Igualdade Racial), Carlos Lupi (Previdência) e Vinicius Marques de Carvalho (Controladoria-Geral da União) embolsam mensalmente cerca de R$ 83 mil – quase o dobro do teto do funcionalismo público federal, que é de R$ 46 mil. Mas o risco político para a empresa vai muito além desses valores.

O ESTADO NA SALA DE REUNIÕES: QUANDO BRASÍLIA DECIDE O FUTURO EMPRESARIAL

A Tupy não é uma empresa qualquer. Fundada em 1938, em Joinville, Santa Catarina, tornou-se uma das maiores fabricantes globais de blocos e cabeçotes de motores, com aproximadamente 13 mil funcionários diretos e 1.500 terceirizados. No terceiro trimestre de 2024, registrou receita líquida de R$ 2,8 bilhões, números que demonstram sua relevância para a economia brasileira.

Mas a empresa que deveria navegar exclusivamente pelas águas do mercado, está, na verdade, ancorada em portos estatais. O BNDESPar (braço de participações do BNDES) detém 28,19% das ações da Tupy, enquanto a Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil) controla outros 24,8%. Juntos, esses dois acionistas somam 53% do capital da empresa, uma maioria absoluta que lhes dá poder para tomar praticamente qualquer decisão.

É como se a Tupy fosse um carro esportivo potente, pronto para acelerar na pista competitiva do mercado global, mas com dois motoristas estatais brigando pelo volante. E os passageiros? Esses são os acionistas minoritários, que assistem impotentes ao veículo ser conduzido por interesses nem sempre alinhados com a performance financeira.

CONSELHEIROS DE LUXO: QUAL O PREÇO DO APADRINHAMENTO POLÍTICO?

O conselho de administração da Tupy, responsável por “fixar a orientação geral dos negócios da Companhia, controlar e fiscalizar o seu desempenho”, tornou-se uma espécie de extensão de Brasília. Três ministros do atual governo (LULA3) ocupam cadeiras estratégicas, sem a experiência técnica necessária para contribuir efetivamente com a empresa.

A ministra Anielle Franco, formada em letras e jornalismo, com mestrado em relações étnicorraciais e experiência como professora de inglês, pouco tem a agregar em uma indústria metalúrgica de alta complexidade. No entanto, participa do Comitê de Pessoas, Cultura e Governança, recebendo generosa remuneração por isso.

O mais alarmante: esses ministros assumiram suas posições sem consultar previamente a Comissão de Ética Pública da Presidência, o que só ocorreu um ano depois, após a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) abrir um processo administrativo para investigar possíveis irregularidades.

É como contratar um piloto sem verificar se ele tem licença para voar, e só pedir os documentos depois que o avião já decolou.

Em reunião marcada para 24 de março, a Comissão de Ética decidirá se abre processo contra os ministros por violação ética. Se condenados, poderão receber uma “censura ética” por três anos – uma mancha em seus currículos que, convenhamos, dificilmente compensará os quase R$ 1 milhão que cada um terá embolsado no período.

O CEO VINDO DE BRASÍLIA: COMPETÊNCIA OU CONEXÃO POLÍTICA?

Como se não bastasse o controle do conselho, o BNDES agora indica o próximo CEO da companhia. Em 18 de março de 2025, a Tupy informou ao mercado que recebeu “sugestão” do BNDES para avaliar Rafael Esmeraldo Lucchesi Ramacciotti como potencial candidato à sucessão do atual diretor presidente.

Lucchesi é diretor há 18 anos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e liderou o SESI e o SENAI por 14 anos. Embora tenha experiência no setor industrial como um todo, não possui histórico específico na gestão de uma empresa do porte e da complexidade da Tupy. É como colocar um técnico de basquete para comandar um time de futebol de elite: conhecimento setorial genérico não substitui expertise operacional.

O mercado reagiu imediatamente: as ações da empresa caíram 7% na B3 quando a notícia se tornou pública. É como se investidores estivessem gritando em uníssono:

“JÁ BASTA DE INDICAÇÕES POLÍTICAS!”

Uma fonte próxima à empresa tentou amenizar a situação, afirmando ao NeoFeed que “ele [Lucchesi] não tem um perfil de natureza política, sua trajetória é bem técnica, sendo um interlocutor ativo da indústria brasileira”. Mas a queda nas ações sugere que o mercado não comprou essa narrativa.

O CUSTO INVISÍVEL DA INTERFERÊNCIA ESTATAL

A interferência política na gestão de empresas privadas, mesmo aquelas com participação estatal, raramente traz bons resultados. A história recente do Brasil está repleta de exemplos como Petrobras e Eletrobras, que só conseguiram recuperar valor de mercado quando reduziram a influência política em suas decisões.

Para a Tupy, os riscos são múltiplos:

  1. Decisões estratégicas subordinadas a interesses políticos: Imagine um cenário em que a empresa precise fazer demissões para se manter competitiva. Como reagiriam os conselheiros-ministros, preocupados com o impacto político de tal decisão?
  2. Perda de atratividade no mercado de capitais: Investidores privados tendem a evitar empresas com forte interferência estatal, o que pode dificultar futuras captações de recursos;
  3. Desalinhamento com práticas globais de governança: Em um mundo cada vez mais exigente quanto a critérios ESG (Ambiental, Social e Governança), o excesso de indicações políticas afeta negativamente a percepção de governança da empresa;
  4. Deterioração da cultura meritocrática: Quando cargos importantes são preenchidos por indicação política e não por competência técnica, toda a cultura organizacional é afetada.

É importante ressaltar que a participação do Estado como acionista não é, em si, um problema. O BNDES tem papel fundamental no desenvolvimento da indústria brasileira, e a Previ administra o futuro de milhares de funcionários do Banco do Brasil. O problema surge quando a linha entre investimento estratégico e aparelhamento político se torna indistinguível.

No entanto, uma pergunta permanece no ar: quanto mais a Tupy poderia crescer se pudesse se concentrar apenas em sua estratégia de negócios, livre das amarras do apadrinhamento político?

Histórico recente mostra padrões preocupantes:

Empresa

Interferência

Resultado

Petrobras (2010-2016)

Controle de preços

Perda de R$ 226 bi em valor de mercado

Eletrobras (2012-2017)

Indicações políticas

Dívida de R$ 49 bi

Tupy (2025-)

CEO indicado por BNDES

Queda imediata no valor das ações em 7%

ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO: UM CAMINHO POSSÍVEL

A situação da Tupy não é um caso isolado, mas um sintoma de um problema maior: a dificuldade do Brasil em estabelecer limites claros entre o público e o privado. Mesmo em empresas com participação estatal, é fundamental respeitar princípios básicos de governança corporativa e meritocracia.

Algumas medidas poderiam ajudar a mitigar os riscos políticos na Tupy e em outras empresas similares:

  1. Critérios técnicos rigorosos para indicações: Conselheiros e executivos deveriam comprovar experiência específica no setor e conhecimento técnico relevante para a função.
  2. Transparência total nas remunerações e processos decisórios: Acionistas e o público em geral deveriam ter acesso fácil a informações sobre quanto cada conselheiro recebe e como são tomadas as decisões.
  3. Limitação do número de indicações políticas: Mesmo acionistas majoritários deveriam ter limitações quanto ao número de indicações diretas, garantindo diversidade de pensamento e independência.
  4. Avaliação periódica de desempenho dos conselheiros: Com métricas claras e consequências para desempenhos insatisfatórios.

O Brasil precisa urgentemente de uma discussão madura sobre o papel do Estado na economia. Nem o estatismo exacerbado nem o liberalismo radical parecem oferecer respostas adequadas para nossos desafios. É necessário encontrar um equilíbrio que permita ao Estado cumprir seu papel de fomento e desenvolvimento, sem sufocar a independência e a competitividade das empresas.

Enquanto isso, os ministros-conselheiros continuam recebendo seus R$ 83 mil mensais, além dos proventos e benefícios pago pelo Estado pelo cargo ocupado no governo. Vale lembrar, que este valor é pago acima do teto do funcionalismo público.

No caso específico da Tupy, o mercado já emitiu seu veredicto com a queda das ações. Resta saber se os controladores estatais ouvirão esse sinal de alerta ou se continuarão tratando uma joia da indústria nacional como mero instrumento de acomodação de interesses políticos ou se entrará para a lista de empresas onde o Estado brasileiro transformou acionista minoritário em refém político.

Contribuidor

Escrito por Anderson Nunes

Especialista em análise política. Há mais de 7 anos operando no mercado financeiro, com formação em engenharia e em gestão pública. Investidor com grande experiência em opções e conhecedor do cenário político brasileiro e sua influência sobre o mercado financeiro. Comando diariamente o programa Canal Auxiliando no YouTube passando um overview do mercado, traduzindo as complexidades das informações de Brasília em análises precisas e diretas, que podem ser utilizadas nas decisões de investimentos

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