Olá pessoal!
Faço uma breve pausa nas férias para compartilhar um resumo de dois artigos acadêmicos que têm circulado recentemente no X e que abordam um tema cada vez mais relevante: a relação entre inteligência artificial e as limitações impostas pelos sistemas de memória.
O primeiro artigo, publicado em 1994, é o clássico Hitting the Memory Wall (“Atingindo a Barreira de Memória”, em tradução livre), que descreve como a evolução dos processadores passou a ser limitada pela velocidade de acesso à memória. O segundo, muito mais recente, é o artigo AI and Memory Wall (2024), que revisita esse conceito à luz do avanço acelerado da inteligência artificial e discute como esse gargalo continua sendo um dos principais desafios para o futuro da computação.
1- O que os papers efetivamente demonstram?
Paper 1 — Hitting the Memory Wall (1994)
Principal insight: O desempenho dos processadores evolui mais rápido que o desempenho da memória.Mesmo pequenas limitações de acesso à memória acabam dominando o desempenho do sistema.
Implicação econômica : O paper sugere que, ao longo do tempo, investir apenas em capacidade de processamento gera retornos decrescentes se a infraestrutura de memória não evoluir na mesma velocidade. Em linguagem de Teoria das Restrições: o gargalo migra para a memória.
Paper 2 — AI and Memory Wall (2024)
Principal insight: Os autores argumentam que exatamente esse fenômeno já está ocorrendo na IA moderna.O crescimento de FLOPS não está sendo acompanhado por crescimento proporcional de:
- bandwidth;
- capacidade de memória;
- interconexão;
- movimentação de dados entre aceleradores.
O ponto mais importante: Em diversos workloads de inferência de LLMs, principalmente decode autoregressivo, o sistema passa mais tempo movimentando dados do que computando.Isso significa que adicionar mais compute não necessariamente aumenta o throughput.
2- O que isso significa para a tese de investimento
Os papers reforçam uma mudança importante:A narrativa dominante do mercado tinha sido: IA = GPUs. Enquanto os papers sugerem uma narrativa diferente: IA = sistema completo de movimentação de dados.
Nesse modelo:
- GPU é necessária, mas não é suficiente.
O verdadeiro throughput depende de:
- memória;
- packaging;
- interconexão;
- energia;
- refrigeração;
- capacidade de expansão física.
3- Quem captura valor ( Beneficiários de primeira ordem):
Memória (HBM)
- Micron
- SK Hynix
- Samsung
Motivo: A memória passa de componente para restrição.
Quando a restrição está em um elo específico da cadeia, esse elo tende a ganhar:
- poder de precificação;
- visibilidade de demanda;
- expansão de margem.
Advanced Packaging
- TSMC CoWoS
- ASE
- Amkor
Motivo: Sem packaging avançado não existe integração eficiente entre GPU e HBM.
Os papers não falam extensivamente sobre CoWoS, mas sua lógica aponta diretamente para esse elo.
Equipamentos
- ASML
- Applied Materials
- Lam Research
- KLA
Motivo: A expansão da capacidade de memória exige expansão industrial.
4-O que os papers mudam na interpretação anterior
A principal mudança não é tecnológica.É econômica.
Antes: o gargalo parecia ser GPU.
Agora: GPU é apenas uma manifestação visível do gargalo.
A restrição mais profunda parece estar em movimentação de dados. Isso desloca a análise para:
- memória;
- packaging;
- interconnect;
- energia.
Desde 2025, a expansão acelerada dos workloads de inferência tem resultado em volumes sem precedentes de geração de tokens, fornecendo evidências empíricas que sustentam a tese central do paper.

Geração de tokens por semana
5- Conclusão
A principal conclusão dos dois papers é que o problema central da IA não é produzir mais computação.É alimentar essa computação.Essa distinção parece sutil, mas muda completamente a leitura da cadeia de valor.Sob a ótica de investimento, os maiores vencedores tendem a ser os fornecedores posicionados exatamente onde o fluxo da IA encontra sua restrição física.Hoje, isso aponta principalmente para:
- HBM e memória avançada;
- advanced packaging;
- interconexão;
- infraestrutura energética.
Em outras palavras: a próxima fase da IA pode ser menos uma corrida por FLOPS e mais uma corrida por bytes, bandwidth e energia.
Forte abraço!
Rodrigo Silveira






